"As árvores eram altas e triangulares. Permaneceram caladas.
Liesel tirou
da bolsa A Sacudidora de Palavras e mostrou uma página a Rudy. Nela havia um menino com três medalhas penduradas no pescoço.
- ‘cabelos da cor de limões’ – leu Rudy. Seus dedos
tocaram as palavras. – Você falou de mim pra ele?


No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbu
lência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando. Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.

Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos montado às pressas, com um riso irregular e hesitante. Sob o arvoredo, nessa tarde, era um doador de pão e ursinhos de pelúcia. Um tríplice campeão de atletismo da Juventude Hitlerista. Era seu melhor amigo. E estava a um mês de sua morte.
- É claro que falei de
você com ele – disse Liesel.
Estava se despedindo,
e nem sabia."


A menina que roubava livros.


Restou em mim um gosto de pecado.

Raro, e rarefeito

Síntese do quase ópio a que me subordinava.

A necessidade ilícita a que meu corpo grita.

E clama, e súplica, e entende, e sorri

Pois senti sua presença, se externo alguma dor.

Ao que me entrego, estamos em paz.

Ao que te nego, busco uma explicação que não chega.

Por que o céu me parece saber sorrir, quando eu também sorrio.

Cada parte sintoniza com o além, infinito de nós dois.

Cada ser feito pra nós,

Cada prazer que cabe, invade, e fim – pétala e corpo!

E o instinto que aprendemos a ter.

Nascer tudo novo pra nos abraçar

Fazer tudo calmo pra te ver chegar, e permanecer em mim:

Aprendi a te eternizar – necessidade que o corpo impõe.

Pra eu saber a luz do seu sorriso, e se assim for preciso

Saber ser você me tocando

Um tato, um símbolo, um segredo de nossos corpos em abraços,

E outros braços, todos seus,

Pra eu te encontrar em cada parte de um todo que é nosso,

Ainda que em segredo.

Eu, teu brinquedo, te espero num canto – que é também eternidade.

Te vejo chegando, meu corpo a vontade

Reconhecendo seu toque, posto em liberdade

Sem pudor, nem sobriedade,

Ser feliz, é nessa entrega!


(Ao som de Quem irá nos proteger, Vanessa da Mata)


"Preparei a nossa casa,

Chame alguém para um café.

Nosso amor e a nossa cama,

Não empreste a ninguém."



.

Sente
o céu que te toca.
E intacta, a palavra solta à boca foge.
A língua foge e se abriga

O medo foge e em mim respinga

Voltamos à estaca zero!

E o vento, e o corpo,

E o corpo louco e insano

E o gosto insano e profano

E o pecado nascente.

E dane-se se formos pecado,

E que assim, alados

Busquemos o infinito que habita em nós.



.


“A Bahia é linda.”

Leia num to baiano de falar.

Não! Leia num tom Caetano de falar. E de se falar sobre o que a Bahia pari, sobretudo.

Cana doce, Santo Amaro. Gosto muito raro trago em mim por ti. Gosto de quem agradece ao céu estrelado, por ter derramado sua estrela maior sobre aquela terra. E em mim, despertou-se o desejo de ser santo-amarense pra ser um pouco mais Veloso. Um pouco mais Caetano Veloso. E sobre Santo Amaro, é só um agradecimento, por ter parido-o. Caetano e poeta. Um leãozinho, um menino do rio da Bahia. Uma alegria com cara de carnaval. Um índio descido de uma estrela colorida. Brilhante. Na mesma velocidade estonteante que me abraçou.

Alguma coisa aconteceu em meu coração. Um ritmo pulsando em música e poesia. A elegia de outros poetas em sua canção. Um apertar de mão suave, me levando a outras viagens além. E que assim seja, amém! Um aventurado em busca do acorde perfeito maior, que – e que me perdoem os demais – é quase só seu. E não menos que isso, existir se destina a poesia sublime da música, do farol iluminando as águas da Bahia, onde em mim, sua presença faz moradia. E eu permito, para inspirar. É mais que uma idéia louca, nessa doce apatia charmosa e sua, tão qual o brilho da Lua, reflete coisas suas em mim. E jorra poesia, para que o tempo, tempo, tempo, tempo, compositor de destinos, tambor de todos os seus ritmos, preserve o que o seu céu de Santo Amaro, desenhou. E depois de você,outras coisas novas sobre o Sol, para caetanear o que há de bom. Mas nenhuma Caetano. O leãozinho. Um enigma. Uma interrogação. Um som de samba meloso. Um Veloso de mente odara, do axé do afoxé, e o que a música quiser, e a mente permite. Antes de você chegar, era tudo saudade. Hoje, outros astros lhe são guia, e por mais distante, o errante navegante, quem jamais, te esqueceria?




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Eu gosto quando encontro seu olhar

No meio do caminho, e num breve pulsar de encanto

Onde todo o canto, o mal desfaça, quando o bem disfarça

Em forma de música.

Eu gosto do ritmo pulsante do corpo

Quando cê finge se aproximar

Eu tento disfarçar o que meu olhar entrega

E o que ele carrega como um presente.

A mente lapida o sonho

E torna evidente o gosto raro e inibido da tua boca.

E o tempo escorre entre o instante em que te perco

E a lembrança do que não volta,

E tudo a minha volta desenha você de braços abertos

Pra que eu me sinta em seu abraço

Quando o corpo exausto

Desentender-se com o destino

E a música soprar para dentro

Como amor ou lamento

E em mim concretizar o plano

Do encontro profano

De nós dois sobre o mar.

Dentre todos os caminhos, o seu;
Em direção ao que repouso,
Entre um desgosto e outro sonho
Entre o azul que me abraça, e o que quer me afogar.
Sobre o peito, um palpitar sereno
De quem se acostuma a viver em pedaços,
No encontro pleno
Entre os meus e os seus braços.
Eu sou quem sabe o que te faz bem
Quem conhece, e percebe além,
Quem deseja, e tudo mais.
Eu sou a sagacidade do seu corpo
A hegemonia do meu, envolto
O que não quer te largar.
Eu posso me apoiar no teu silêncio
Deixando vestígios de luz e paz, suor e calor.
Posso ser o tempo todo amor
Se puder ser direcionado,
Sem vaidade, sem dissabor
Sendo quem te ama calado,
Com o silêncio de quem conhece o céu.
Posso amanhecer ou anoitecer no que precisa,
Ou o frio na barriga, que tira a minha paz.
E se a vontade de algo mais persistir
Posso ser no que sorrir
Onde encontra seu abrigo feliz.

Me sorriu um sorriso de canto, e eu me entreguei;

Quando teu corpo, ainda em brasa quente me suplicou uma gota de saliva para evaporar. É engraçado como essas coisas têm o dom de se tornarem maiores à proporção que pensamos que obviamente, elas tenham.

Me sorriu um sorriso de canto, e eu me entreguei;

Quando fizemos da noite uma valsa, num canto uníssono de nossos corpos, criando ruídos no silêncio que instauramos na serenidade desse abraço.

Me sorriu um sorriso de canto, e eu me entreguei;

Não que eu quisesse, ou pensasse, ou sonhasse que fosse de outra forma. Vai! Eu não sei falar de pequenassentimentalidades tão bem como você.

Mas eu sei o que falar, de quando você me sorri de canto, e eu me entrego.

Eu não saberia despertar, sem ter amor, ódio, repúdio, tesão, raiva. Eu não saberia despertar, sem desejar que você morra, ou viva, em mim. Para mim. Eu sei do que é explicito, e do que fica gravado. Da sua língua tatuando meu corpo, da sua mão sem jeito em meu cabelo, sua risada mansa ao pé do ouvido, em sucessivas tentativas frustradas de sensualidade.

Me sorriu um sorriso de canto, pois sorriso de canto, não exige nenhum esforço de sensualidade. É inata. Insensata. E eu me entrego.